PT| Os teus privilégios não te dão só mais poder: vêm com uma responsabilidade.
(Banda sonora sugerida durante a leitura aqui)
Não somos alheios ao pobre que pede esmola na rua.
Ninguém é. E por melhor que que possamos ser a olhar para o discretamente lado e a seguir em frente, cá dentro, o sentimento é igual.
Há uma humanidade dentro de nós. Que todos partilhamos. E que é mais fácil encontrar quando vivemos em harmonia.
Tinha 14 anos quando li o meu primeiro livro do Robin Sharma. Hoje mais famoso pelo Clube das 5 da Manhã.E muitos outros autores depois a falarem sobre a dualidade de vivermos em harmonia ou em medo.
E como o que acontece de errado nas nossas vidas e na sociedade no geral deriva de vivermos em medo, ao invés de em harmonia.
E como é fácil para mim, e para ti que estás desse lado do ecrã, pensarmos que queremos viver em harmonia — não é?
Que nos vamos esforçar para tal. Para sermos um exemplo para os demais.
Mas é errado.
A linha que (nos) separa
É errado porque o nosso cérebro acaba por construir caixas. Caixas que guardam a mensagem de que nós estamos no lado certo, a tentar viver em harmonia.
O que, de forma menos foleira, não é mais do que respeitar o outro.
A sua opinião, ainda que diferente da nossa.
A forma como se veste, ainda que tenhamos estereótipos sobre o indivíduo consoante as vestes que carrega.
Saber receber críticas, sem sermos deitados a baixo ou duvidarmos do nosso valor.
Dar um ombro amigo sem julgar.
Tomar decisões difíceis confiando que estamos a fazer a escolha certo, conseguindo gerir medos descontextualizados.
Perceber que os ataques dos outros muitas vezes não são diretamente dirigidos a nós mas que funcionamos como um espelho face ao que outros (não) gostam em si.
Só há um (grande) problemas.
Percebemos que não somos especiais
Separamo-nos dos demais.
Pois é. Aqui estamos nós a tentar viver em harmonia.
E ali estão os demais. Que precisam de ser ajudados. Por nós, os que vivem em harmonia.
Criamos uma linha que separa duas caixas.
E quão difícil não é olhar para os demais de forma igual. Quando sabes — ou, melhor, julgas — que eles não estão tão empenhados em viver em harmonia e atingir o seu máximo potencial— que é o caminho certo — como tu.
E será que não nos vemos como mais especiais do que eles?
Eu via.
Eu sou especial, claro. De tenra idade que me questiono sobre questões maiores: acerca do planeta e da humanidade. Como foi. Como e porquê é que é. Como poderá vir a ser. E o que posso eu fazer a esse respeito.
Vários livros, terapias, cursos de desenvolvimento pessoal depois, aqui estou eu. Claramente a viver mais em harmonia do que os outros. A conseguir perceber a frustação e a ira dos demais.
A conseguir analisar friamente comportamentos e atitudes. Inclusive a perceber a sua origem quando se trata daqueles que me são mais próximos.
A inspirar quem me ouve em palestras ou quem me lê em blogs porque sei já algumas coisas graças à educação, aos livros e aos cursos que fui e vou tirando. E estou bem na vida, o que me permite gozar de uma certa criatividade e vivacidade.
Estou certo que também tu, em vários momentos sentes o mesmo.
Parece que somos um pouco mais especiais do quem temos à frente.
Porque temos mais anos de experiência profissional em certa área. Porque já vivemos algo semelhante e ultrapassámos certos problemas.
O que seja.
E pessoalmente, tenho orgulho no meu percurso.
A sério que tenho. Só que não sou especial. Sou priviligiado. E disso, sempre tive uma vergonha enorme. Porque só queria ser igual à maioria. E não ter este peso sobre os meus ombros.
Encontrar os nossos privilégios
Sou priviligiado porque sou homem.
Visto-me rapidamente sem pensar se ou como vão olhar para mim. Nunca tive de pensar em carreira vs. família. Nunca pensei que podia ganhar menos do que outrem. Não tenho o mesmo medo de andar sozinho na rua, sobretudo de noite.
Sou priviligiado porque sou branco.
E venho de uma família de brancos. Não tenho na minha memória nem ativo nos meus genes todos os traumas históricos (e ainda hoje vigentes) dos negros. Tenho, no entanto, estereótipos — a maioria infundados — sobre a sociedade em que cresci dos quais ainda não me consegui soltar totalmente.
Sou privigiliado graças à minha classe social.
Os meus pais tiveram organização, visão e espírito de sacrifício para construir uma estabilidade da qual eu usufrui e usufruo. Como consequência, tenho mais e melhor educação. Viajei bastante e tenho uma visão mais completa do mundo.
E tudo somado, consigo tomar melhores decisões do que quem é pobre.
Quem o diz não sou eu. É Rutger Bregman em Utopia for Realists.
Não são pobres porque tomam más decisões. Tomam más decisões porque são pobres
Os pobres cometem mais crimes. Têm mais propensão à obesidade. Usam mais alcóol e drogas. E tomam piores decisões. E não, isto não é uma crítica. É despir a realidade neste ecrã.
No fundo, é o reconhecimento de que o meu caminho — e quiçá o teu também? — é mais fácil do que o deles.
E de se eu ou tu estivessemos na posição deles, não seríamos melhores. Tomaríamos decisões igualmente más.
Os pobres vivem no que o Bregman chama de mental scarcity, ou escassez mental. Uma perceção mental que leva a que as pessoas a comportarem-se de forma diferente quando percecionam algo como sendo escasso.
Apesar de ser positivo ao ajudar na resolução de problemas no curto-prazo, tem muitas desvantagens ao não permitir um pensamento a longo-prazo.
Há demasiados estímulos e ameaças no presente que preocupam e levam a tomar decisões precipitadas, pouco acertadas e inclusive aparentemente irracionais. Estímulos que tornam difícil planear e antecipar o futuro.
Não somos só especiais
Uma experiência feita pelo psicológo e investigador na Universidade de Princeton Eldar Shafir, mostrou que os efeitos da pobreza levam o cérebro dos pobres a viverem como se não tivessem dormido por uma noite. São 13–14 pontos de IQ a menos.
Tudo somado, óbvio que os meus privilégios me fazem ter mais vida mais fácil.
Onde é mais fácil viver em harmonia. Onde é mais fácil viver a vida ao máximo e ser quem eu quiser — como o Fred Canto e Castro tanto prega.
Eis o que me mexe comigo: é que não é só sobre nós.
Vai continuar a custar ver o pobre pedir esmola, mesmo que tenhamos — o que nos convencemos ser — um emprego ou vida de sonho.
Que, atenção, temos todo o direito de sonhar com e de perseguir.
Mas sem esquecer — e reconhecendo, sobretudo perante nós mesmos — que não somos só especiais.
Somos também priviligiados.
E por isso, aquilo que atingimos não é só mérito nosso. É também privilégio.
E isso traz-nos duas escolhas.
Entre o privilégio e o mérito
A primeira escolha é vivermos a olhar para o lado, felizes com os nossos privilégios.
Aprendendo a olhar do alto dos nossos traumas (sim, os priviligiados também têm traumas — olhem só o Trump!).
Reconhecendo que temos um ego ferido por uma experiência de crescimento traumática (imaginem os não priviligiados!) que nos limita com medos e inseguranças infundados. Sejamos super priviligiados ou só um pouco priviligiados — dá igual.
E através de uma séries de técnicas — psicoterapia, meditações ativas, yoga, bioenergética, terapia pelo som, banhos na floresta, ou o que seja que faz sentido a cada um em cada momento — ultrapassarmos estas limitações e chegarmos mais perto de uma vida mais plena e realizada.
Ou — opção 2 — juntarmos à escolha anterior uma pitada de coragem.
E valorizarmos o nosso caminho reconhecendo que somos um misto de esforço, trabalho e valor, sim. Mas também de privilégio sem o qual não estariamos onde estamos.
Privilégios que fazem nos facilitam o caminho a percorrer.
Que tornam mais fácil percebermos que podemos ser mais e melhores. E vivermos na tal harmonia que falávamos antes.
Isto enquanto o average Joe, que não tem muitos destes privilégios, mais dificilmente — ou mais tardiamente— vai perceber que existe esse caminho para percorrer.
Reconhecendo que somos provavelmente o resultado de um misto de mérito e privilégio, acredito que fica mais fácil não julgar quem vive no medo ou comportando-se como um pobre ou um average Joe.
Só que há uma contrapartida: não vais conseguir ficar indiferente, agora que tens um julgamento mais compreensivo e tolerante.
Construção de um mundo melhor: priviligiados precisam-se
Porque a humanidade em nós faz-nos querer resgatar o outro para junto da nossa posição mais harmoniosa e segura.
Só que, como o Henrique Raposo referiu recentemente a propósito da pobreza, sem uma compreensão holítisca da origem e das consequências da ausência de privilégio, dificilmente conseguimos resgatá-los.
Isto porque o outro, que talvez não seja menos especial do que eu e tu mas sim menos priviligiado, precisa dos nossos privilégios para chegar mais perto de nós.
Por isso precisamos que os mais priviligiados, seja a que nível de privilégio for — diria que a consciência de ser priviligiado pode ser o factor de auto-convocatória — digam presente.
Que não trabalhem exclusivamente no seu desenvolvimento pessoal ou no seu sucesso profissional. E que ajudem também a ajudar a construir sociedades onde haja mais priviligiados.
Podemos dizer que somos todos um, ir à missa aos domingos, meditar em círculos ou usando apps, ou pagar uma quota anual numa (ou em muitas) ONGs.
Podemos decidir que queremos é um pedaço de terra para sermos felizes ou uma caravana para viajar pelo mundo e não nos chatearem. Ou ficarmos conformados num emprego numa empresa top que paga um bom salário.
Mas não é isto, em parte, egoísta? (Questiono-me).
A responsabilidade que sabemos que temos
Por enquanto o fazemos, deixamos aqueles cujo ego ferido — que aprendeu que é pelo oportunismo e autoridade imposta que se está seguro e em harmonia — a “liderar” empresas, governos e altas intituições de “cooperação”.
Com o tipo de (falta de) resultados que (não) temos visto.
E se não é egoísmo, é — para mim — lamentável. Porque os nossos privilégios dão-nos poder.
Há muitos anos que a frase seguinte, que infelizmente não me recordo onde li, seguinte me ressoa cá dentro. Tão simples como:
Great power comes with great responsibility.
Ou o grande poder acarreta uma grande responsabilidade.
Precisamos urgentemente de desenhar novos processos para atravessar conflitos, diferenças de opinião e objetivos e e tomar decisões que façam do mundo um lugar melhor.
De desenhar rituais que reavivem a nossa humanidade — os que temos estão demasiado focados nos consumo e pouco na conexão entre nós e com a Natureza.
Pega nos teus privilégios, continua a trabalhar o teu desenvolvimento pessoal e sucesso profissional mas vem daí tentar fazer algo pelo todo.
Os teus privilégios não te dão apenas mais poder e um caminho mais fácil em relação aos não priviligiados: eles acarream também uma responsabilidade.
E quanto mais e maiores os privilégios, mais e a maior a responsabilidade.
Podes ignorá-la. Mas ela vai estar sempre lá.
É a nossa humanidade.
PS: Se sentires que de alguma forma te apontei o dedo, não fui eu. Nem sei quem és. O dedo é o da tua mão. Significa que algo ressoou em ti. Nem que seja discórdia total com o que escrevi. O que (não) sentimos é nossa responsabilidade. Não é de mais ninguém.
