O MISTERIOSO HOMEM DA VITRINA (PARTE 3)

Pela primeira vez nos meus trinta e cinco anos de idade hoje não fui trabalhar. Não consegui sair da cama. Sinto-me fraco, talvez por comer tão pouco, não quero ver ninguém, quero estar só, deitado na minha cama, em posição fetal e com a cabeça tapada. De olhos fechados mesmo acordado. O coração acelerado, os suores gelados, a boca seca, a falta de ar, vão e vêm com mais frequência. Estou a atingir o limite do suportável. Pressinto que o meu inimigo mortal está muito perto de me apanhar. Sei agora que não há como escapar. O fim está próximo!
Parei definitivamente de comer. Não me lavo mais. Não saio à rua nem atendo o telemóvel. Não falo com ninguém há mais de um mês. Encho-me de soníferos para fugir da realidade mas mesmo assim ele não desaparece. Podia ir à polícia mas não tenho vontade de o fazer. Sempre gostei de ler um bom livro ou ver um filme, mas não tenho vontade de o fazer. Talvez dar uma volta pela internet, mas não tenho vontade de o fazer. Mas afinal o que poderia eu fazer para me distrair um pouco se nada neste mundo faz sentido. Qual o propósito de tudo isto? Qual o propósito da vida? Sei agora o que me aconteceu, simplesmente perdi a vontade de viver! Não existe nenhum propósito na minha vida, só dor e sofrimento.
A sensação de medo, ou devo dizer de pavor ou talvez de pânico já não me larga. Deixei de trabalhar, nem me justifiquei perante a empresa. Para quê? Tudo irá acabar em breve. As coisas pioraram e muito. Sempre que vou à janela, lá está ele imóvel, esteja sol ou a chover. A persistência dele é inimaginável. Acredito agora que talvez seja alguma criatura do além que me veio buscar por ter acabado o meu tempo aqui na terra e espera pacientemente o momento certo.
Não vou lutar mais. O destino já foi traçado. Sento-me na cadeira do meu quarto frente ao espelho com a minha arma na mão. Lá está ele estático a olhar-me nos olhos. Mas desta vez é diferente, ele não foge e eu também não. Desta vez reconheci-o. Não é nenhuma alma penada. É um homem que conheço como a mim próprio, um homem que sempre esteve lá, escondido dentro de mim porque sempre decidi ignorá-lo, nunca quis ouvir o que tinha para dizer, enterrei-o o mais profundamente que me foi possível. Era o suicida que sempre fui, era o EU verdadeiro que os ataques de pânico libertaram e veio cobrar o seu lugar. Finalmente ele tinha vencido. Pego na arma, aponto-a à minha cabeça e

