Madrinha Eunice e as Onze Fitas

“Por engano, vingança ou cortesia Tava lá morto e posto, um desgarrado”
São Paulo, a capital do mundo, um cenário acolhedor que é vendido igualmente a um jovem que precisa de dinheiro vendendo bala nos semáforos da Avenida Brasil, São João ou Avenida Aricanduva. Na expectativa, tudo é lindo e maravilhoso, mas na realidade tudo é dolorido e sofrido, precisa de suor e de muita boa vontade no coração.
Neste cenário de bons ventos, a cultura é um dos pilares para distração daqueles que precisam, nas vielas tortuosas da cidade, o samba ainda resiste! Nas diversas quadras de escola de samba, o surdo de primeira marca silenciosamente a vontade de gritar pelos direitos dos sambistas, nem sempre é lamento ou dor, muitas vezes para provar que ele ainda resiste. Uma cultura que para muitos que vivem aqui é ainda hoje, coisa de arruaceiro, vagabundo e que tentam enterrar ainda vivo.
Onze tiros fizeram a avaria E o morto já tava conformado Onze tiros e não sei porque tantos E esses tempos não tão pra ninharia Não fosse a vez daquele um outro ia
Nesta viagem, o samba e outros ritmos populares sofrem e sangram, mas as Escolas de Samba apanham muito mais, esquecidas pelo poder público nos grandes eventos da cidade é recordada apenas na hora de pedir voto ou na festa de Réveillon para agradar alguns gregos e troianos. Nesta Celeuma oficial, a virada cultural desconhece os seus terreiros, que são vilipendiados, deixados no canto do esquecimento e que não são lembrados nem pelo seu cunho raiz que carregam em seus registros: CULTURAL.
Deus o livre morrer assassinado Pro seu santo não era um qualquer um Três dias num terreno abandonado Ostentando onze fitas de Ogum
Depois deste fio, de tantos confetes e serpentinas, eis que as luzes da ribalta que tanto alegram e apaixonaram os poetas, fez como as lamparinas e luminárias de ruas e se apagaram. Os pendentes dos velhos casebres da moralidade se apagaram e não teve pavio que sustentasse a chama da paz, após as imagens deste fim de semana. Ver a Estatua de Madrinha Eunice sendo apagada por um palco, escondida, escamoteada dentro de um mundaréu de equipamentos e ferrarias, doeu na alma. Dor tamanha ao nosso cenário atual, onde vemos crianças na Rua Direita, Rua São Bento com idade abaixo de 08 anos, pedindo auxilio para poder existir, poder se alimentar, sobreviver.

Uma estatua de uma mulher negra, forte, valente sendo escondida, escamoteada, será que ninguém viu? Viu! Claro que viu! Como não ver a elegância desta dama envolta desta camada tênue e pesada de poluição que esta cidade possui. Se tivesse flores em volta morreria, mas tinha café e o café resiste! As vezes eu reflito, será que a Cidade de São Paulo merece estas histórias, seus baluartes, merece as Escolas de Samba? Igual Madrinha Eunice esta Geraldo Filme, lá no breu do viaduto Pacaembu, sozinho, triste sem a alegria de suas canções e o som de sua marmita. Geraldão que tanto nos alegrou, esta lá em um lugar que não é seu e que nem sabem que ele existe.
Ambos merecem mais, Madrinha merece um púlpito, um altar merece ser vista, esta além das mulheres do seu tempo e muitas dos nossos tempos. Geraldão merece cair nos braços do samba, merece estar na praça central da Fábrica do Samba para sua história não ser esquecida.
Nesta reflexão eu chego a conclusão, São Paulo não é o tumulo do Samba, são as pessoas que ganham em cima que fazem ele ser assim!
afinal…
Quantas vezes se leu Só nesta semana Essa história contada Assim por cima A verdade não rima A verdade não rima A verdade não rima A verdade
Trechos da Canção: Onze Fitas da compositora Fatima Guedes






