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Abstract

a de que todas as ações perversas do ser humano estão relacionadas a traumas ou são frutos de imposições sociais. Como se a ação moral fosse suspendida e não houvesse mais a capacidade do erro pelo erro, apenas o distúrbio mental ou a reprodução de um problema anterior ao agente da ação. Esse racionalismo determinista encontra sua fraqueza justamente na sua interpretação reducionista da condição humana, anulando da mesma qualquer elemento de compreensão moral e individual.</p><p id="5d62">Nesse sentido, o mal deixa de existir apenas pela sua própria motivação, independente do conteúdo de sua ação. O motivo passa a redimir qualquer ato e a ação humana se torna apenas um mecanismo robotizado. Esse é o problema com boa parte das interpretações de Coringa, pois a partir do momento em que a simples existência de uma motivação se torna um fator de justificação, não há uma separação entre um Arthur inocente, vítima de sua realidade (momento em que a motivação está sendo construída) e um Arthur dominado pela persona do Coringa, no qual decide reagir através da transgressão a essa mesma realidade. Portanto, essa opção interpretativa é uma opção pela negação da construção do próprio personagem que é apresentado no decorrer do filme. Se não há o elemento da escolha e se não há consequência moral, sequer há uma estória a ser contada.</p><p id="1071">Santo Agostinho em suas Confissões relata um episódio no qual decide roubar as pêras de um vizinho. Em sua reflexão, ele questiona o real motivo de sua própria atitude, uma vez que ele mesmo teria pêras em sua própria casa. A conclusão do Doutor da Graça é certeira: seu desejo era pelo mal enquanto tal, pois via na transgressão atrativo suficiente. De tal modo, a presença do mal é articulada na atmosfera criada por Todd Phillips. Um mal que não se encontra apenas no Coringa já manifesto, mas na própria condição que antecede o mesmo, muito bem retratada visualmente através de uma fotografia escura e suja, contrastando com a caracterização do personagem em sua forma última, como de costume associada ao colorido cômico.</p><figure id="3343"><img src="https://cdn-images-1.readmedium.com/v2/resize:fit:800/1*psL3B5I_0UsmE8hqPrgfJw.jpeg"><figcaption></figcaption></figure><p id="f67a">E esse é um dos aspectos que descreve de forma precisa a maneira como a ascensão do personagem em sua versão esperada conclui exatamente aquilo que é proposto pela narrativa ao longo do desenvolvimento, isto é, a adesão pela transgressão como uma forma de libertação da condição anterior de Arthur. Elemento que é reforçado através da impecável atuação de Joaquin Phoenix. Aliás, o trabalho de Phoenix ao dar vida para o personagem de forma tão magistral pode ser exemplificado tanto a partir de sua caracterização física, na qual o ator chegou a perder bastante peso que o permitiu trabalhar de forma relevante para a trama através de seu corpo, quanto na forma como constrói as diferentes risadas do personagem. Ao ser impulsionado por seu desejo incontrolável e patológico, é po

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ssível claramente ver o sofrimento de Arthur durante a risada, diferentemente de sua risada intencional, que é ainda mais macabra, porém curiosamente mais leve e reconfortante.</p><p id="c029">A última risada, entretanto, é aquela em que se une as duas dimensões, quando o personagem se vê tomado pelo sua doença mas não mais encontra o sofrimento. Ao invés disso, sua risada inevitável se torna uma fonte de prazer e alívio. Pois nesse momento a transgressão já lhe serviu como um caminho de libertação, resultando na adesão intencional a própria loucura. É a risada do Coringa.</p><figure id="805c"><img src="https://cdn-images-1.readmedium.com/v2/resize:fit:800/1*ug0lVW9jrDxZLszgHXEW5g.jpeg"><figcaption></figcaption></figure><figure id="61f2"><img src="https://cdn-images-1.readmedium.com/v2/resize:fit:800/1*tdQ84hb-7xargZAEsGB5Kw.jpeg"><figcaption></figcaption></figure><p id="d7bf">De tal maneira, a ideia de que o filme utiliza as adversidades do personagem para justificar suas ações encontra ainda mais contradições, uma vez que claramente Arthur faz uma opção em oposição a seu sofrimento e não como uma consequência direta dele. De maneira mais clara, o Coringa é uma resposta de fuga de Arthur Fleck e não uma criação automática de sua doença ou condição social. O movimento de Arthur ao se entregar ao seu desequilíbrio não encontra uma causa suficiente e evidente na sua condição, uma vez que sempre a teve e nem sempre fora um assassino.</p><p id="c826">Arthur ao se tornar o Coringa realiza uma escolha pelo ressentimento e se entrega às suas paixões negativas, não como uma manifestação de um descontrole psicológico, mas antes de tudo como uma forma de alívio da sua própria condição, sendo portanto uma escolha. Isso é exemplificado no fato de que ele não é um agente do caos isolado, fazendo de sua imagem um símbolo de justificação da violência para os mais variados indivíduos que escolhem optar pelo mesmo caminho do personagem: o de se entregar às más paixões e enxergar no mal a resposta para algum problema, qualquer que seja o motivo em particular. Nesse momento, tudo se desmorona e a presença do mal surge no seu ápice narrativo.</p><p id="6ddd">Em suma, é perceptível dizer que Joker (2019) é um estudo sobre a presença do mal como uma opção para a condição humana, uma opção corrupta e equivocada, mas atraente. É por isso que o espectador consegue se identificar e até justificar as ações de Coringa, pois se o tema do filme é que o mal reside no coração de cada um, em cada esquina, ele reside também no espectador na sala de cinema: naquele que acha que o Coringa não está necessariamente errado ou que o justifica pela sua "condição". E até mesmo naquele que julga a estória por supostamente legitimar a transgressão. Não se percebe muita das vezes, que não é o filme que a legítima, mas o próprio espectador. E é nesse sentido que o objetivo de Todd Phillips se torna completo, fazendo com que quem está do outro lado da tela se torne um personagem relevante na trama.</p></article></body>

Joker - a presença do mal na sala de cinema

Se apresentando como uma das mais impactantes obras no cenário cinematográfico deste ano, Joker (2019) suscitou discussões para além das telas, que vão desde questões relacionadas a responsabilidade da arte ao retrato de quadros de sofrimento psicológico e psiquiátrico. Nesse sentido, a mensagem do filme passou a ser enfatizada em torno da indagação do quanto o mesmo poderia ou não influenciar e moldar a maneira como o mundo real é enxergado pelo espectador. Todavia, ao contrário do que se pode imaginar, o impacto de Joker e toda a controvérsia gerada pelo filme não se apresenta como o reflexo negativo de um trabalho que foi aonde não deveria ir, mas é parte crucial da própria proposta narrativa apresenta por Todd Phillips.

O elemento central da estória não está, portanto, em como a mesma é capaz de moldar a realidade, mas o contrário: como a realidade permite enxergar a trágica trajetória de Arthur Fleck?

Dessa forma o espectador é um agente ativo dentro do roteiro, estando ali não apenas para compreendê-lo, mas para atribuir significado. E há muito o que ser retratado e pensado ao longo da narrativa. Fazer um recorte restrito seria retirar do filme toda a sua ousadia, pois se trata de uma trama que dialoga com variadas questões, permitindo o acréscimo de diversas camadas de interpretação. Coringa é um filme político; psicólogo; um estudo de personagem; uma crítica social. Mas não consegue ser nenhuma dessas coisas sozinho. Toda a trama se entrelaça justamente na sua capacidade de apresentar uma realidade complexa e diversa que, assim como o mundo não ficcional, possui suas imprevisibilidades e incertezas.

Mas de todas as dinâmicas apresentadas a principal - e ao mesmo tempo talvez a mais sutil mensagem que é enfatizada - é a do papel da escolha moral frente a presença do mal no mundo. Muito ao contrário do que alguns têm propagado ao afirmarem que o longa constrói um vilão justificado, atribuindo suas ações à sua condição psiquiátrica e social, a história se volta numa direção contrária. O elemento da construção de motivação que está presente de maneira magistral a medida que o personagem vai sendo desenvolvido com certeza se relaciona com a realidade na qual Arthur está inserido e na trágica vivência de suas patologias. E isso se torna coerente com a proposta do filme de retratar a origem de um personagem, necessitando portanto dar sentido à sua existência e fazer com o que espectador de alguma maneira se identifique com o protagonista.

De fato, a existência dessas condições em torno do personagem são elementos que fornecem ao mesmo camadas e profundidade e servem para enfatizar o peso de suas decisões conscientes, e não o contrário. Um dos maiores mitos da contemporaneidade é a ideia de que todas as ações perversas do ser humano estão relacionadas a traumas ou são frutos de imposições sociais. Como se a ação moral fosse suspendida e não houvesse mais a capacidade do erro pelo erro, apenas o distúrbio mental ou a reprodução de um problema anterior ao agente da ação. Esse racionalismo determinista encontra sua fraqueza justamente na sua interpretação reducionista da condição humana, anulando da mesma qualquer elemento de compreensão moral e individual.

Nesse sentido, o mal deixa de existir apenas pela sua própria motivação, independente do conteúdo de sua ação. O motivo passa a redimir qualquer ato e a ação humana se torna apenas um mecanismo robotizado. Esse é o problema com boa parte das interpretações de Coringa, pois a partir do momento em que a simples existência de uma motivação se torna um fator de justificação, não há uma separação entre um Arthur inocente, vítima de sua realidade (momento em que a motivação está sendo construída) e um Arthur dominado pela persona do Coringa, no qual decide reagir através da transgressão a essa mesma realidade. Portanto, essa opção interpretativa é uma opção pela negação da construção do próprio personagem que é apresentado no decorrer do filme. Se não há o elemento da escolha e se não há consequência moral, sequer há uma estória a ser contada.

Santo Agostinho em suas Confissões relata um episódio no qual decide roubar as pêras de um vizinho. Em sua reflexão, ele questiona o real motivo de sua própria atitude, uma vez que ele mesmo teria pêras em sua própria casa. A conclusão do Doutor da Graça é certeira: seu desejo era pelo mal enquanto tal, pois via na transgressão atrativo suficiente. De tal modo, a presença do mal é articulada na atmosfera criada por Todd Phillips. Um mal que não se encontra apenas no Coringa já manifesto, mas na própria condição que antecede o mesmo, muito bem retratada visualmente através de uma fotografia escura e suja, contrastando com a caracterização do personagem em sua forma última, como de costume associada ao colorido cômico.

E esse é um dos aspectos que descreve de forma precisa a maneira como a ascensão do personagem em sua versão esperada conclui exatamente aquilo que é proposto pela narrativa ao longo do desenvolvimento, isto é, a adesão pela transgressão como uma forma de libertação da condição anterior de Arthur. Elemento que é reforçado através da impecável atuação de Joaquin Phoenix. Aliás, o trabalho de Phoenix ao dar vida para o personagem de forma tão magistral pode ser exemplificado tanto a partir de sua caracterização física, na qual o ator chegou a perder bastante peso que o permitiu trabalhar de forma relevante para a trama através de seu corpo, quanto na forma como constrói as diferentes risadas do personagem. Ao ser impulsionado por seu desejo incontrolável e patológico, é possível claramente ver o sofrimento de Arthur durante a risada, diferentemente de sua risada intencional, que é ainda mais macabra, porém curiosamente mais leve e reconfortante.

A última risada, entretanto, é aquela em que se une as duas dimensões, quando o personagem se vê tomado pelo sua doença mas não mais encontra o sofrimento. Ao invés disso, sua risada inevitável se torna uma fonte de prazer e alívio. Pois nesse momento a transgressão já lhe serviu como um caminho de libertação, resultando na adesão intencional a própria loucura. É a risada do Coringa.

De tal maneira, a ideia de que o filme utiliza as adversidades do personagem para justificar suas ações encontra ainda mais contradições, uma vez que claramente Arthur faz uma opção em oposição a seu sofrimento e não como uma consequência direta dele. De maneira mais clara, o Coringa é uma resposta de fuga de Arthur Fleck e não uma criação automática de sua doença ou condição social. O movimento de Arthur ao se entregar ao seu desequilíbrio não encontra uma causa suficiente e evidente na sua condição, uma vez que sempre a teve e nem sempre fora um assassino.

Arthur ao se tornar o Coringa realiza uma escolha pelo ressentimento e se entrega às suas paixões negativas, não como uma manifestação de um descontrole psicológico, mas antes de tudo como uma forma de alívio da sua própria condição, sendo portanto uma escolha. Isso é exemplificado no fato de que ele não é um agente do caos isolado, fazendo de sua imagem um símbolo de justificação da violência para os mais variados indivíduos que escolhem optar pelo mesmo caminho do personagem: o de se entregar às más paixões e enxergar no mal a resposta para algum problema, qualquer que seja o motivo em particular. Nesse momento, tudo se desmorona e a presença do mal surge no seu ápice narrativo.

Em suma, é perceptível dizer que Joker (2019) é um estudo sobre a presença do mal como uma opção para a condição humana, uma opção corrupta e equivocada, mas atraente. É por isso que o espectador consegue se identificar e até justificar as ações de Coringa, pois se o tema do filme é que o mal reside no coração de cada um, em cada esquina, ele reside também no espectador na sala de cinema: naquele que acha que o Coringa não está necessariamente errado ou que o justifica pela sua "condição". E até mesmo naquele que julga a estória por supostamente legitimar a transgressão. Não se percebe muita das vezes, que não é o filme que a legítima, mas o próprio espectador. E é nesse sentido que o objetivo de Todd Phillips se torna completo, fazendo com que quem está do outro lado da tela se torne um personagem relevante na trama.

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