Assim o Coronavírus entrou na minha vida.
De uma conversa com um motorista de aplicativo em um ensolarado dia no Centro de Lisboa, ainda no verão de 2019 eu ouvi: “Tais a ver como eles fazem? Não param de gravar e tirar fotos. Aí, na volta, já em suas moradas, olham tudo que conheceram. Pelas fotos e vídeos. Não querem perder nada.” O caro chofer se referia a um (grande) grupo de turistas chineses. Cada um olhando para um lado… nada escapava das lentes. Lembro o episódio porque depois disso comecei a observar o óbvio: como tem chinês nesse mundão de Meu Deus! E que já fique muito claro: este não é um discurso xenófobo. Muito pelo contrário. Aqui na Europa o que se mais vê nos principais pontos turísticos são justamente essas pessoas de olhinhos puxados, sorridentes, de qualquer idade portanto seus variados equipamentos eletrônicos. E no caso de Portugal ainda existem os chineses residentes, que por isenções fiscais fora do comum, possuem milhares de lojas de utilidades espalhadas de Norte a Sul. Foi o que veio diretamente à minha cabeça quando li a primeira informação sobre o coronavírus ainda no fim do ano passado. Isentando totalmente a população chinesa, mas sem dúvida era o pior lugar do mundo para se iniciar a propagação de um novo vírus.

Já do outro lado do Atlântico pra quem quer botar a culpa da evolução do coronavírus no carnaval ainda em fevereiro, informo que em Portugal também teve carnaval sem restrições. Blocos na rua e bares lotados. Digo isso porque o país lusitano é tratado pelo mundo como um dos locais com maior conscientização de prevenção a doença.

Eu já tinha uma certa preocupação, mas a única medida concreta que tomei foi, com muita luta, parar com um vício de anos: roer as unhas. E sigo na luta. Acompanhei o primeiro caso da doença em Portugal, a primeira morte… Mas a ficha começou a cair mesmo em uma sexta-feira, dia 13 de março. De manhã, mais uma vez, um motorista de aplicativo me disse: “Minha mulher foi no Pingo Doce de Mem Martins (Sintra) e já não tem mais quase carne, macarrão e produtos de limpeza.” Imediatamente pensei: que exagero a história desse motorista. Fui ao mercado ontem e não tinha nada disso. Mas no fim desse mesmo dia precisei ir novamente (não o mesmo do relato do motorista) comprar alguma coisa e vi algumas prateleiras completamente vazias. Pode parecer uma coisa pequena, mas nunca tinha visto isso! Apenas em filmes e séries apocalípticas que adoro, mas hoje em dia “pero no mucho”. Na fila do caixa um casal com três, quatro carrinhos lotados de tudo que se possa imaginar. Começava a Terceira Guerra Mundial, agora pelo papel higiênico. Atrás de mim uma senhora com um saquinho de frango na mão. Nessa hora pensei na minha avó lá no Brasil e em quem não não tem dinheiro para fazer essas compras em profusão. É o ser humano testado e reprovado já na primeira avaliação. Se faltava papel higiênico, feijão em lata e macarrão… sobrava ignorância e egoísmo. E ignorância e egoísmo não tem pátria, só muda o CEP, no caso de Portugal, código postal. No dia seguinte, sábado de manhã, voltei ao mesmo mercado já com restrição de entrada dos clientes. Saía um, entrava outro. Tudo muito confuso. Lembro que na porta tinha um segurança do estabelecimento, um senhor de meia idade, parecia angolano, sendo desrespeitado por alguns clientes por apenas estar cumprindo as regras do mercado. Confusas ou não, as regras do mercado.


Na semana anterior precisei ir até o aeroporto de Lisboa duas vezes para fazer e retirar o meu passaporte português. De onde morava em Oeiras pegava um trem e depois o metrô. O transporte público funciona bem, mas em alguns horários do dia, o sistema fica bem confuso. Mas naquela semana o meu caminho para o aeroporto parecia dia de domingo. Tranquilidade absoluta. No aeroporto um movimento bem reduzido. Entregamos nosso apartamento em Oeiras e nesse momento já não havia como apertar as mãos do corretor que foi buscar as chaves. Álcool em gel também já não se achava em lugar algum. O que pude perceber é que entre os portugueses já havia um respeito enorme a doença e ao que estávamos prestes a enfrentar. Pelo medo do que já estava acontecendo na Itália? Talvez… mas que já tinha um respeito, ah tinha.
Até a data da viagem ficamos hospedados na casa de amigos em Póvoa de Santa Iria, às margens do Rio Tejo e bem mais perto do aeroporto. E por ali passeando com o cão ou indo ao mercado observamos lojas fechadas e bilhetes nas portas. Papelarias, restaurantes, pet shops, etc. Na barbearia Cotrim por exemplo o recado pregado na porta era esse: “Estimados clientes, após ponderarmos muito sobre a situação atual, informamos aos nossos clientes que a partir do dia 16\03, iremos fechar as portas por tempo indeterminado, devido ao período que estamos a viver. Pedimos desculpa, mas esta decisão foi tomada em prol da saúde de todos nós. Esperamos que todos respeitem as medidas impostas para retornarmos a vida normal o mais breve possível.”


Neste clima tínhamos nosso voo marcado para Munique no dia 18\03. Tudo pronto, malas na porta e vem a mensagem da companhia aérea: “Seu voo para Munique foi cancelado.” Por sorte nos colocaram em outro voo dois dias depois. Mas nesse momento não tínhamos certeza de mais nada. Casos e mortes aumentando, fronteiras se fechando e atestado médico para a viagem do cão vencendo. Chegamos aeroporto dia 20, umas duas horas antes do voo. Filas pra todo lado e uma burocracia que não era normal, mas totalmente compreensível e necessária. Conseguimos passar por todas as barreiras, embarcamos e mesmo para uma pessoa que detesta viajar de avião tenho que admitir que o processo mais tranquilo desses últimos 15 dias foi justamente o voo. No dia seguinte o governo da Baviera anunciou o Lockdown. A partir daí tirei duas conclusões: quero distância das séries apocalípticas e o meu cachorro foi o último animal a conseguir entrar em Munique. E não custa lembrar o conselho da Barbearia Cotrim… Fique em casa!
