A Religião nas Relações Internacionais

Um dos dilemas, ou falso dilema, mais recorrentes nas abordagens das ciências sociais como um todo é a o papel da presença da religião no entendimento acerca da dimensão social e política. O processo de secularização que é tido como um dos elementos definidores da modernidade, e que inquestionavelmente alterou o lugar da religião na realidade social, acaba muita das vezes sendo estopim para uma tentativa falida de menosprezar a religiosidade como parte integrante da vida humana. Nas Relações Internacionais não é diferente, pois é certo que em muitas abordagens a religião é tida como pano de fundo desconsiderável, fruto, evidentemente, do legado positivista nas ciências sociais.
Por outro lado, tanto do ponto de vista teórico quanto do ponto de vista prático, é possível enxergar a centralidade que o fenômeno religioso acaba ocupando na maneira como a vida social se organiza e o mesmo ocorre nas relações entre os Estados e outros atores na sociedade internacional. De fato, do ponto de vista histórico a própria constituição do entendimento das relações internacionais é em alguma medida afetada pela dimensão religiosa. A saber, como argumenta Daniel Philpott, a estrutura central das relações internacionais na modernidade é o produto de uma conjuntura religiosa específica.
A paz de Westphalia, de 1648, é tida como o principal marco para a constituição do atual sistema de Estados, pois a partir de tal evento é que conceitos como soberania e autodeterminação dos povos foram concretizados formalmente, dando origem ao que hoje se entende por Estado moderno. Philpott argumenta que tal ocorrência só pode ser entendida uma vez que se considere o papel dos processos de transformação causados pela reformas protestantes iniciadas no século XVI. Como descreve, “o conteúdo intrínseco do protestantismo leva à soberania”. Em suma, Philpott aponta para a relevância das ideias protestantes e principalmente da teologia política associada aos movimentos de reforma que acabariam por influenciar, devido também a outros fatores contingenciais, a formação histórica do atual sistema de Estados; de tal modo que sem o papel da religião as coisas poderiam ter sido bem distintas.
Assim, um dos primeiros aspectos fundamentais para se pensar a religião do ponto de vista da análise das Relações Internacionais se dá através da investigação histórica que fornece fundamento para a compreensão das bases que sustentam as práticas, valores e ideias que foram absorvidas ao longo do tempo e moldaram as relações entre os Estados. A dimensão histórica, inclusive, vai ser de grande importância para a construção de um conjunto de teorias das Relações Internacionais identificadas com a abordagem tradicionalista, isto é, que enfatizam o caráter epistemológico das Relações Internacionais como de cunho interdisciplinar e orientado para a dimensão filosófica, histórica e normativa em detrimento da abordagem cientificista e positivista.
Nessa linha, a compreensão da prática religiosa pode ser estendida para uma série de outros elementos presentes nas principais discussões acerca do ambiente externo: como a guerra; a diplomacia; os direitos humanos; o meio ambiente e etc. Por outro lado, se faz possível também abordar o papel da religião do ponto de vista teórico com base em uma análise mais localizada e subjetivista, presente no papel da virada construtivista, a qual questiona o status positivista e materialista do pensamento internacional dominante. Na visão construtivista, a realidade social é constituída de elementos intersubjetivos que definem como a realidade material é compreendida e representada, moldando diretamente a maneira como as relações políticas, sociais e econômicas são postuladas.
Nesse sentido, é possível fazer um levantamento mais consistente a respeito da influência de atores não estatais e de aspectos internos na forma como as relações internacionais são moldadas. Como aponta Jonathan Fox,
“a religião pode influenciar a política de três maneiras. Em primeiro lugar, a política externa é influenciada pelas visões religiosas e crenças dos tomadores de decisão e seus constituintes. Em segundo, a religião é uma fonte de legitimidade tanto para aqueles que apoiam ou criticam o governo, local e internacionalmente. Em terceiro lugar, vários problemas e fenômenos religiosos, incluindo conflitos religiosos, se espalham através das fronteiras ou de algum modo se tornam questões internacionais”.
Muitos dos principais temas que se tornaram preocupação pras RI no século XXI evidenciam essa presença do fator religioso como relevante. Samuel Huntington, em livro publicado no pós-guerra fria, já buscava apontar como que a emergência de fatores identitários iria se tornar central no desenvolvimento dos principais conflitos a nível internacional. Para Huntington, que toma um caminho distinto de seu aluno Fukuyama, a vitória da democracia liberal e sua pretensão universalista acabaria por resultar num inevitável choque de civilizações, em que o fator ideológico e econômico não seria mais o grande elemento divisor de águas, mas seria substituído por divergências em torno de valores, crenças e perspectivas religiosas - pois para o autor a religião se apresenta como um dos pilares do que ele designa como civilização.
Se a previsão de Huntington foi certeira eu não sou capaz de afirmar, mas sem dúvida, sua contribuição nos ajuda em muito a pensar alguns dos dilemas contemporâneos como a agenda de guerra ao terror motivada pela ascensão do terrorismo islâmico e os conflitos religiosos no Oriente Médio e, mais recentemente, a onda nacionalista que em muitos cenários traz consigo uma forte retórica de apelo religioso. É o caso do fenômeno descrito como nacionalismo religioso que, nas palavras de Anna Grzymala-Busse, pode ser identificado a medida que o “nacionalismo religioso depende das identidades e mitos religiosos para definir a nação e seus objetivos”. Desse modo, a religião se apresenta como uma variável notável de construção de discursos de identidade e unidade nacional e hoje é articulada como instrumento de projetos de poder populista.
A situação política brasileira evidencia bastante a influência do aspecto religioso como determinante na arena política. Na eleição de 2018, com a vitória de Jair Bolsonaro, a força do crescimento evangélico não apenas se demonstrou presente, como determinante. Em comparação com outros grupos religiosos, os evangélicos tiveram um peso muito maior na tomada de decisão em detrimento do candidato vencedor. Como aponta pesquisa do Datafolha, diferente dos católicos que tiveram uma diferença de 1.174.194 votos a favor de Bolsonaro, os evangélicos tiveram uma diferença de 11.951.618 votos a favor do atual governo. Essa relação não se apresenta de maneira puramente espontânea, mas pode ser percebida na forma como Bolsonaro durante sua campanha se aproximou de grupos de interesse religiosos e incluiu no seu discurso muito do vocabulário evangélico, a ponto inclusive de protagonizar um ato herético de batismo no Rio Jordão realizado pelo Pastor Everaldo, líder do Partido Social Cristão.
A abordagem religiosa na campanha bolsonarista fica evidente no seu próprio lema de campanha: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. De tal modo, é observável como tal elemento tem influenciado as ações de governo, desde a esfera interna até sua política externa. A escolha de Ernesto Araújo e o direcionamento não convencional que o governo tem dado ao Itamaraty revela o compromisso de Bolsonaro com a ala religiosa de sua base. Basta pegar a título de exemplo a aproximação ideológica com Israel e a inclusão de seus símbolos, o que dialoga diretamente com a teologia política triunfalista e particularmente judaizante dos grupos neopentecostais. Além, é claro, da inclinação brasileira em se alinhar com países islâmicos em pautas internacionais referentes à sexualidade.
Indo mais além, a plataforma ideológica antiglobalista que é alimentada pelo movimento olavista carrega em si um forte apelo de cunho valorativo associado a pautas que são caras ao movimento evangélico. Questões de controvérsia moral como aborto, drogas, casamento homosexual e afins são vistas como formas de dominação de uma elite global que busca suplantar os valores cristãos da sociedade em prol de enfraquecer o Estado Nação e assim constituir um governo global com o objetivo de implantar um comunismo universal.
Novamente, a relação entre a preservação da identidade nacional e a adesão a um discurso religioso se apresenta como adequadamente relacionados. É possível notar, inclusive, como que a plataforma nacionalista paranóica do bolsolavismo foi capaz de encontrar solo fértil na mentalidade evangélica, mesmo Bolsonaro e a ala olavista sendo originalmente identificados com o catolicismo. Em termos de imaginário há uma harmonia de pensamento bastante conveniente que permite uma relação íntima desses grupos com o discurso antiglobalista. E isso é facilitado por um aspecto importante da teologia neopentecostal, que é a doutrina da batalha espiritual. Em suma, a batalha espiritual na versão neopentecostal constitui o entendimento que a prática cristã se dá através de uma batalha obscura contra as forças demoníacas que tentam a todo tempo derrotar o fiel. Essa batalha se manifesta, sobretudo, em aspectos materiais e cotidianos e possui forte ênfase dualista.
Nesse sentido, eu proponho, que o discurso antiglobalista surge como uma politização da doutrina da batalha espiritual neopentecostal. Se antes, a preocupação era com elementos da cultura popular que de alguma maneira estariam alinhados a Satanás e seus demônios com o objetivo de subverter a moral religiosa, hoje essa influência satânica se encontra, de acordo com esses grupos, em agendas políticas e na idealização de uma suposta elite dominante comprometida com o projeto diabólico de destruição dos valores tradicionais. A religião passa então ser um instrumento de afirmação da preservação da identidade nacional.
De modo geral, é plenamente observável o quanto a esfera religiosa não apenas tem influenciado, mas sempre influenciou, a atividade política tanto a nível doméstico quanto a nível internacional. Pensar as relações internacionais em suas diversas camadas e complexidades passa pela consideração de se apropriar do estudo da religião como fator relevante. Por mais que certas tendências secularistas e ingênuas podem por vezes negligenciar tal elemento, é notável que cada dia mais isso deixa de se tornar uma opção viável. Mais ainda, a ideia de um progresso racionalista e humanista anti religioso é, paradoxalmente, fruto de um mito religioso que foi produzido pelo iluminismo. Como aponta John Gray, essa abordagem, além de falsa, produziu religiões políticas utópicas que demonstraram incapacidade de lidar com as promessas deliberadas pelas suas próprias doutrinas. O retorno das religiões apocalípticas, como aponta Gray, e sua influência na esfera pública, não é o retorno da religião per si, mas a substituição das religiões seculares iluministas por religiões tradicionais que por muito tempo se pensou estarem esquecidas.
João Calvino afirmou que o coração do homem é uma fábrica de ídolos. Nesse caso, a experiência religiosa e a busca pelo sagrado podem ser entendidos como parte intrínsecas da condição humana. A política e as relações internacionais inevitavelmente acabam sendo influenciadas por esse elemento. Portanto, pensar a religião hoje é também ser capaz de ampliar os horizontes em relação a uma série de questões e problemas que são caros a dimensão política e social.
REFERÊNCIAS
FOX, Jonathan. Religion as an Overlooked Element of International Relations. International Studies Association, Oxford, p. 53-73, 2001.
GRAY, John. Black Mass: Apocalyptic Religion and the Death of Utopia. 1. ed. London: Penguin, 2008.
GRZYMALA-BUSSE, Anna. Religious Nationalism and Religious Influence. Oxford Reaserch Encyclopedia, Oxford, p. 1-23, 2020.
HUNTINGTON , Samuel. The Clash of Civilizations: and the Remaking of World Order. 1. ed. Oxford.
O voto evangélico garantiu a eleição de Jair Bolsonaro: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/584304-o-voto-evangelico-garantiu-a-eleicao-de-jair-bolsonaro
PHILPOTT, Daniel. The Religious Roots of Modern International Relations. World Politics, Cambridge, v. 52, p. 206-245, 2000.
